Por: Bernardino Tomo

Há uma tendência natural de muitos cantores nacionais fazerem apresentações em playback (palavra de origem inglesa que significa colocar a voz numa música pré-gravada), ao invés de cantarem ao vivo. Atenção! Ao longo do texto vou citar “cantores” referindo homens e mulheres. São vários motivos que levam os nossos cantores a optarem por este método de actuação, com destaque para a falta de instrumentos musicais e ou elementos da banda; falta de conhecimentos sólidos em matérias de técnicas de voz, domínio do microfone e interação com os elementos da banda; incapacidade de investir na formação musical; falta de tempo e paciência para ensaiar com banda; vontade de não partilhar o caché com os elementos da banda e falta de fundos para custear as despesas de aluguer de aparelhagem ou local dos ensaios.

Na verdade, independentemente dos motivos, cantar em playback é a pior palhaçada que existe no ramo musical. O playback compara-se com karaokê (palavra de origem japonesa), um passatempo que abre espaço para muitos amadores cantarem em voz alta e de forma ruim, sem vergonha na cara.

Existem canais televisivos e eventos internacionais, por exemplo, que não permitem cantores de faz-de-conta, cantores que estilam no palco com microfone desligado e só funciona, no final da música, quando dizem “obrigadoooooo”.   
Por causa do playback, encontramos cantores perdidos no labirinto da simulação, actuam sempre desafinados e fora do compasso; priorizam a palhaçada ao invés da voz; lançam músicas plásticas que padecem de vários defeitos. Portanto, na minha visão clinica, na lista dos “viciados” em playback, o destaque vai para Mabermuda, MC Roger, Messias Maricoa, os irmãos Baronet (Shellsy e Zander), Zav, Mimae, The Boss Layd (Liloca), Bob Sam, Kastelo Bravo, Yo-yo, Afro Madjaha, Team Sabawana, mana Matilidinha, Melancia de Moz, Zandamela de Moz e Mulher Bacia. Yuuuuuhhhh…”mamã”! Os últimos três nomes desta lista precisam de uma intervenção cirúrgica muito urgente, para substituírem as cordas vocais. 

Nesta lista em causa, existem alguns cantores que, no ano passado, fizeram todas actuações em playback. Outros tentaram trabalhar com banda, mas o show que parecia ser um sucesso virou pesadelo; cantaram “atrás da nota”, no lugar onde deveriam pronunciar SOL, diziam Sola, Mi (ma), DÓ (Da), RÉ (Ra), enfim, foram várias situações catastróficas que só entupiram os nossos ouvidos.

Ainda na mesma lista, há cantores que desde o início da carreira musical nunca cantaram ao vivo, nunca sentiram o dedilhar de uma guitarra. Intitulam-se de estrela e dizem que sempre fazem Turnê (palavra francesa que significa digressão, uma série de apresentações ao vivo feita por um artista, grupo musical ou teatral em diferentes locais, dentro ou fora do país). Turnê não significa frequentar muitos sítios e colocar uma instrumental e de repente cantar com microfone ligado. Isso chama-se um simples passeio para palhaçada. A propósito! Vocês que viajam para Europa, América e países africanos, qual é a bagagem musical que trazem para Moçambique? Vejo muitos cantores a publicarem fotos e vídeos, nas redes sociais, que descrevem actuações feitas em playback e, quando regressam, inundam as nossas televisões, falam de condições de estadia, dizem que comeram isto e aquilo e conheceram lugar X e Y…etc, dificilmente falam de experiências adquiridas e o modelo de implementação no país de origem.  

Porém, conheço “artistas” que fazem show de verdade. Digo artistas, pelo facto de serem pessoas talentosas, cantores da vida real, têm o bichinho de música nas veias, por exemplo, Neyma, Nelo João, Dudas Alad, Hortêncio Langa, Roberto Chitsondzo, Mingas, Filomena Maricoa, Júlia Duarte, Ivo Mahel Dama do Bling, Sheila Mahoze, Euridse Jeque, Xixel Langa, Stewart Sukuma, Xidiminguana, Dilon Djindji, Wazimbo, Valdemiro José, Yolanda (da banda Kakana), Azagaia, Simba e Regina (da banda GranMah). Espero que os que não tenham sido indicados nesta segunda lista não se chateiem comigo.

A batalha contra o playback não depende só da vontade dos cantores. Vários intervenientes da nossa cultura são chamados a darem o seu contributo. Por isso, Sílvio de Jesus, Relâmpago, Kátia Agy, Yara da Silva, Puto Aires, Emerson Miranda, Sérgio Faife, mana Tatitana Sumburane, mana Nayde Tembe, boss Guyzelh, “kota” Bang, meu “bro” Faizal António e tantos outros apresentadores e promotores de espectáculos que não foram mencionados, é melhor examinarem os nossos cantores com provas práticas. Seleccionem artistas de verdade, que sabem cantar ao vivo e estão comprometidos com a evolução da nossa música. Eliminem apresentações em playback dos vossos programas ou espectáculos. O povo moçambicano não merece o consumo de músicas plásticas ou melhor lixo electrónico, mas sim, um trabalho de estúdio, músicas devidamente executadas.

O povo moçambicano sempre sofre calado. Por exemplo, alguns empresários do nosso circuito musical promovem publicidade enganosa, divulgam uma extensa lista de cantores convidados e dizem que o show será ao vivo, mas, no dia “D”, a palhaçada do playback ganha espaço e por vezes, no universo de oito cantores, apenas um deles actua com banda. Outros empresários até tentam ser organizados e desafiam aos cantores a acturem com banda, contudo, por causa da pobreza musical dos nossos cantores viciados em playback, o show fica escangalhado, perde a originalidade. É por isso, que os cantores internacionais envergonham-nos quando actuam na nossa terra.

Em Moçambique, a música ainda está muito longe de ser encarada como uma profissão. Não há seriedade. Temos uma classe de cantores dorminhocos, sem vontade de pesquisa.

No meu artigo intitulado “Avanços e fracassos do nosso mercado musical”, apontei alguns constrangimentos e possíveis soluções. Em jeito de reforço às ideias avançadas, vale sublinhar que a Universidade Eduardo Mondlane (UEM) através da Escola de Artes Visuais (ECA) é a única instituição que lecciona o curso superior de música. Nas escolas primárias introduziu-se a disciplina de Educação Musical, mas muitos professores leccionam sem, no mínimo, um instrumento musical. Os professores e alunos só conhecem as notas musicais, do ponto e vista teórico. Nenhum empresário já ofereceu instrumentos musicais às escolas, nenhum músico já ofereceu uma guitarra ou piano ao Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano (MINEDH), nem aqueles cantores que exibem carros, roupas e bebidas de luxo já doaram instrumentos musicais. Onde está a componente Responsabilidade Social dos produtores de espectáculos e cantores? Se a música fosse profissão, em Moçambique, tudo isso seria coisas do passado.

Veja só! Quando há mega-espectáculo, até a aparelhagem, sistema de luz, palco, técnicos de som (para não dizer engenheiros), assistentes até cabos vêm de fora. Qual é o futuro que estamos a desenhar para nossa música? Será que a nossa pobreza não abre espaço para crescermos profissionalmente? Até quando vamos ter muitos cantores viciados em playback? Como é possível termos um estilo musical robusto com cantores preguiçosos, em termos de pesquisa? Com que cara o sector empresarial vai apoiar os cantores que só fazem playback?

No entanto, os nossos artistas devem investir no aprendizado de um determinado instrumento musical, pelo menos, aulas particulares de guitarra acústica. As apresentações feitas em bares e programas televisivos devem ser ao vivo. Estamos num estágio em que cada artista deve arrumar os elementos da sua banda. Temos muitos instrumentistas e bons. Temos tudo para dar certo.

 Admito que em alguns países como África do Sul e Angola têm muitos guitarristas, pianistas e bateristas que são os nossos compatriotas, preferem trabalhar com cantores estrangeiros por causa do nível de seriedade, dedicação e profissionalismo.

Daqui a pouco teremos os famosos festivais Azgo, Zouk, Kizomba, entre outros. Há cantores que ainda não começaram a trabalhar com banda. A agitação vai iniciar quando faltar um mês ou uma semana para o show. Isso é mau. Por favor, façam a música com seriedade. Se não conseguem cantar ao vivo abandonem a arte.

O artista que fica constantemente em contacto com uma banda ganha mais profissionalismo. É por isso que alguns artistas de fora, que até não prefiro citar os nomes, envergonham-nos, quando pisam os nossos palcos, eles cantam com maturidade. Mas, alguns cantores nacionais, por causa do vício de playback só fazem coisas de vergonha.

Em jeito de fecho. A música ao vivo faz com que um determinado evento, por exemplo, não seja igual ao outro. O improviso dos elementos da banda e animação dos convidados garantem muita exclusividade, proporcionam um momento interactivo e requintado quer do ponto de vista sonoro quer visual. Cada timbre de voz ou a execução dos instrumentos faz com que cada música seja tocada de forma única. Portanto, cantar e tocar ao vivo traz uma riqueza e extensão da própria música, diferentemente do playback.
Quem SABE faz AO VIVO. Quem não sabe procura aprender e, se não ver “game” é melhor abandonar a música.

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